Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 517

IC31, e o ver o tempo para além da pandemia Voltar

Em 1 de Outubro comemorávamos o dia da libertação do COVID. E neste último 1º de Dezembro voltámos às restrições. Estranho tempo este em que o Feriado da Restauração, originalmente o dia de libertação, acaba por se transformar num tempo de limitação. Mas é necessário ver para além do tempo da pandemia.

Os portugueses de 1640 suportaram um jugo de 60 anos, e não desistiram! Este tempo de COVID também não é um tempo para desespero ou resignação. Antes pelo contrário, este é um período que deve ser utilizado para plantar as sementes do futuro, com redobrada confiança. Como nos ensinaram, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe!

Ora isso significa que não devemos abdicar da nossa ambição e, em particular, da aspiração de desenvolvimento deste nosso território. A recente notícia de que o traçado do IC31 entre a A23, Termas de Monfortinho, e Espanha não terá um perfil de autoestrada é de uma miopia confrangedora. A pergunta poderia ser – Para que serviu o 25 de Abril de 1974? Mas, ainda poderíamos fazer outra pergunta – Para que serviu o 1º de Dezembro de 1640? 

Em abono da verdade convém dizer que o 1º de Dezembro correspondeu a um golpe de estado. Os revoltosos portugueses depuseram do trono Filipe III, da linha sucessória de Filipe I. Este último tinha assumido o trono de Portugal em resultado do Cardeal-Rei D. Henrique ter falecido sem filhos. Nessa altura houve três candidatos ao trono: Filipe, que já era Rei de Espanha e de linhagem portuguesa por parte da mãe; D. Catarina, Duquesa de Bragança; e D. António, Prior do Crato. De forma livre as Cortes de Almeirim confirmaram como Rei Filipe I. E este até foi um bom Rei de Portugal, o que felizmente não aconteceu com os sucessores. É então que em 1640 surge a restauração, e supõe-se, é claro, que foi feita de forma que Portugal se pudesse desenvolver, já que Madrid apenas se preocupava com o território espanhol.

Ora, criar um IC31 sem perfil de autoestrada, sendo que a ligação do lado de Espanha já está concluída e liga a Madrid pela EX-A1, é um ato de menosprezo do governo de Lisboa para com as populações deste nosso território. Não foi para isto que se fez a restauração! Por outro lado, temos, já construída, a EX-A1 para Madrid em Moraleja, aqui a menos de 20km de Monfortinho. Por coincidência o Rei de Espanha chama-se Filipe VI. Há aqui uma deferência positiva de Madrid para com os seus territórios de fronteira que não existe por parte de Lisboa para com o nosso lado. Não foi para isto que foi feita a Restauração em que todos nós, apesar de tudo, continuamos a acreditar! 

Quanto à primeira pergunta – Para que serviu o 25 de Abril de 1974? Ele serviu certamente para dar a voz aos representantes do povo. E é importante que os eleitos assumam pela sua voz a defesa de elementos essenciais para o desenvolvimento do território. Podem até não conseguir influenciar as decisões, pois a democracia proporcional é desfavorável a territórios com pouca população, mas não se podem resignar ao silêncio. Mas o 25 de Abril de 1974 também não foi feito para aceitar o poucochinho – como é o caso de construir o IC31 sem perfil de autoestrada. Aceitar o poucochinho, levantar-se da cadeira, tirar o chapéu, já nós tínhamos antes de 1974. Não foi para isso que se fez o 25 de Abril.

O silêncio tem sido ensurdecedor, sentimos que os eleitos se aconchegam com dificuldade nas cadeiras. Todos eles sentem a desilusão, a frustração, e o desprezo inerente a esta decisão. E todos recordamos a construção do IP5, nos anos em torno de 1985, e sem perfil de autoestrada. E que teve de ser reconstruído no perfil da autoestrada A25, em 2006, pois o IP5 tinha-se transformado na estrada da morte e não era capaz de responder às solicitações do tráfego. O IC31 sem perfil de autoestrada será uma nova estrada da morte, e é ainda uma declaração perentória de quem o assim decidiu de que não acredita, nem quer, o desenvolvimento deste território. Mas todos sabemos que acabará por ter de ser reconstruído, ao fim de outros 20 anos, em perfil de autoestrada, com mortes e custos milionários multiplicados por muitas vezes. Como diria um outro Filipe, neste caso Luiz Felipe Scolari – e o burro sou eu?

 

José Páscoa, Professor Universitário

- 06 dez, 2021