Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 499

A Covilhã no seu esplendor Voltar

Apesar de haver vestígios e documentação da ocupação que remonta aos primeiros habitantes da Península Ibérica, assim como a reconhecida dinâmica comercial ligada à pastorícia, a Covilhã, só em 1186 recebeu o título de Vila.

Foi no decorrer do século XIX, em 20 de Outubro de 1870, que o rei D. Luís elevou a Covilhã à categoria de cidade.

Comemora-se este mês (dia 20) o seu 151º aniversário, com testemunhos riquíssimos da sua história, que podem ser consultados nas diversas bibliotecas desta cidade.

Apesar do grande desenvolvimento que a cidade conheceu na sua parte baixa, ainda hoje se enaltece o seu perfil geográfico montanhoso, uma vez que nele integra o seu património histórico e fabril que se fundem na malha urbana da Covilhã.

Ao longo dos tempos, a Covilhã conheceu épocas áureas de desenvolvimento e crescimento, que lhe permitiram alcançar títulos diversos, nomeadamente os relacionados com a implantação e crescimento da indústria laneira.

Vale a pena salientar que foi no final do século XVI, que D. Luís de Menezes, Conde da Ericeira, instala na cidade a primeira Fábrica Real, denominada Fábrica de Sarjas e Beatas (Fábrica Velha) na Ribeira da Carpinteira, com o objetivo de terminar com a dependência de panos provenientes de Inglaterra.

Foi na sequência deste facto que começaram a chegar mestres tecelões ingleses, que, com os seus conhecimentos e talentos, proporcionaram que a indústria de Lanifícios se implementasse em força e que, ao longo dos anos permitissem a proliferação de fábricas e manufaturas destinadas ao tratamento da lã, mas também alguns hábitos, como o consumo de chá.  

A seguir ao terramoto de 1755, o Marquês de Pombal, então Primeiro-ministro de Portugal, traçou um plano de desenvolvimento nacional de base manufatureira que viria a revelar-se de grande importância histórica.

Com a reconhecida qualidade e peso económico dos tecidos produzidos na Covilhã e com a política de fomento industrial desenvolvida pelo Marquês de Pombal, foi em 1764, que D. José I ordenou a construção da Real Fábrica de Panos junto à Ribeira da Degoldra, onde hoje temos a Universidade da Beira Interior, bem como o Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior.

Este espaço permaneceu como manufatura de lanifícios até ao último quartel do séc. XIX, tendo sido, a partir do ano de 1885, cedido pela Câmara Municipal da Covilhã, para instalação do Regimento de Infantaria 21, seguido do Batalhão de Caçadores 2, que ocupou o edifício até meados do séc. XX.

A partir de 1973, depois de ter funcionado a Repartição de Finanças da Covilhã, numa das áreas, todo o espaço onde se encontrava a antiga Fábrica Velha foi destinado à instalação do então Instituto Politécnico da Covilhã, mais tarde Instituto Universitário da Beira Interior e, por fim, em 1996, Universidade.

Este investimento, que se revelou como uma grande aposta política e social, veio revolucionar a cidade, moldando, vincadamente, a sua própria dinâmica.

A UBI encontra-se, hoje, dispersa por diversos locais, com a criação de Polos que vieram ocupar antigos edifícios fabris, entretanto devolutos.

Esta estrutura contribuiu, grandemente, para o relançamento da cultura e da economia da cidade e do concelho da Covilhã.

Deve salientar-se ainda e no que concerne à verdadeira história do seu desenvolvimento, que a condecoração da passagem á situação de cidade, se ficou a dever à importância e crescimento da indústria de Lanifícios, sendo, pouco depois, a cidade portuguesa a registar o maior crescimento demográfico de todo o país entre 1878 e 1890.

Na viragem do século existiam mais de 700 fábricas, entre pequenas e grandes indústrias, empregando mais de 4500 operários, número que continuou a subir. A rápida expansão e o aumento da pressão demográfica tiveram um grande impacto no urbanismo da cidade.

Em 1884, quando os Lanifícios se tornaram muito relevantes, por intervenção direta do Governo de então, foi criada a Escola Industrial Campos Melo, hoje Escola Secundária, considerada a primeira do seu género em todo o país.

O ensino e o aperfeiçoamento de técnicas industriais vieram demonstrar-se fundamentais na sua implantação, como sendo o maior centro na produção de Lanifícios nacional, com o reconhecimento a nível internacional.

Falar dos 151 anos da passagem da Covilhã, a cidade, é recordar, também, as suas freguesias. Antes da última reforma administrativa, a área do nosso Município era composta pelas Freguesias de Conceição, São Martinho, Santa Maria e São Pedro.

A partir de 2013, passámos a uma Freguesia (União de Freguesias de Covilhã e Canhoso), com a agregação das quatro freguesias existentes e mais o Canhoso.

Com uma vasta área, dormitório da cidade, essencialmente, e com uma área de 6,87 km2 e com 2.237 habitantes (censos de 2011), esta anexa da Covilhã continua a lutar para que venha a ser dotada de infraestruturas dignas de uma população que não tem, por exemplo, uma Farmácia, um Lar, um Centro de Dia, um Posto Médico digno, entre muitos outros, para que possa merecer as mesmas mordomias da cidade mãe.

Utilizando as palavras do então Deputado Luís Sá, do PCP, que, ao intervir no debate da aprovação da agregação da freguesia de Canhoso, referiu que “não desistirão de lutar e que tudo farão para reconquistar o que foi roubado.”

“Um processo cuja responsabilidade é clara e não pode ser escamoteada. O PSD e CDS, que promoveram e aprovaram as Leis que concretizaram a liquidação de freguesias, são os autores materiais deste brutal ataque ao Poder Local Democrático.”

Assim, a cidade da Covilhã e os seus responsáveis políticos têm, nos próximos quatro anos, uma responsabilidade acrescida no que concerne à concretização dos objetivos prometidos em campanha e que agora vamos todos querer que se realizem.

O povo é sereno, mas a paciência tem limites. A ver vamos…

 

António Rebordão, Membro da direção da Mutualista Covilhanense

- 11 nov, 2021