Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: x
Nº: 493

O Mistério dos sonhos Voltar

Sempre que me desloco ao Centro Cirúrgico de Coimbra tenho o hábito de folhear a revista Olhares que aquela instituição edita trimestralmente, tendo-me chamado à atenção um excelente artigo da Psicóloga Clínica, Vanda Clemente, especialista em Medicina Comportamental do Sono.

Muito do conteúdo deste artigo dá resposta ao que se passa connosco ao longo dos dias das nossas vidas, entre sonhos como mensagens de inspiração divina, à realização de desejos ou fantasias. Podem ser curtos, longos, a cores ou a preto e branco, estranhos, angustiantes ou engraçados. É, por assim dizer, aquele mistério de sonhar.

Eu que não consigo dormir as horas normais há anos, não deixo de ter sonhos durante o tempo que durmo, recordando-me de vários sonhos repetidos ao longo do tempo, alguns que bem parecem a realidade e que só quando acordo sinto o lenitivo de que se tratava dum sonho. Também já aconteceram aqueles sonhos de pesadelo que ao levantar parece que tinha a Serra da Estrela às costas. Mas isto penso acontecer com todos nós, uns mais que outros.

Segundo aquela Psicóloga Clínica, os sonhos correspondem à atividade mental involuntária que ocorre durante o sono: são imagens, pensamentos ou emoções. As imagens visuais são as mais comuns, coloridas ou a preto e branco, mas também podem envolver sons, odores, sabores e sensações tácteis. Os sonhos podem constituir uma coleção de imagens e eventos ilógicos, incoerentes ou fantásticos, podem organizar-se em histórias reais entre personagens e, por vezes, são mais impressionistas, carregados de emoções.

Ainda me recordo do primeiro sonho que tive ainda no meu primeiro ou segundo ano de vida. Lembro-me de dizer â minha Mãe que me tinham acontecido coisas estranhas durante a noite quando dormia. Foi quando a minha Mãe me disse que isso era um sonho.

“Há um período em que os sonhos são mais organizados (sonhos REM) com sequências progressivas e são emocionalmente mais intensos, com conteúdos fantásticos em que conseguimos proezas fisicamente impossíveis e temos experiências perturbadoras e intrigantes. Mas também há outro período (sonhos NREM) em que os sonhos são geralmente mais curtos, menos nítidos e têm um conteúdo mais coerente e menos emotivo, relacionados com pensamentos ou memórias sobre um tempo e um lugar específicos. Os sonhos tendem a predominar nas horas antes de acordar.”

Porque sonhamos, ao certo ainda não sabemos. Segundo a Olhares, “os sonhos parecem ter um papel importante na consolidação da memória, no processamento das emoções, na reprodução instantânea de acontecimentos recentes, para que sejam analisados, e na limpeza mental, libertando informações desnecessárias.”

Sonhar faz parte de um sono saudável e melhora o funcionamento cognitivo e emocional. No entanto, os pesadelos podem ter um impacto negativo no sono, pois provocam despertares noturnos.

Já dizia Fernando Pessoa: “Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar”.

Os sonhos permanecem um objeto de mistério e de fascínio e nem sempre foram considerados um produto da mente. Da Antiguidade até hoje, algo mudou na forma de vermos e interpretarmos os sonhos. O sonho foi abordado como objeto de psicologia, pela primeira vez, pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.).

Foi muito mais tarde, principalmente no final do século XVIII e durante o século XIX, que se assistiu ao desenvolvimento de diversas teorias psicológicas sobre os sonhos. Sigmund Freud (1856-1939), médico austríaco, neurologista e psiquiatra, criador da psicanálise, considerava que o sonho é a realidade de um desejo inconsciente, a expressão de fantasias proibidas e reprimidas durante a vigília.

Já Alfred Adler (1870-1937), psicólogo austríaco, defendeu que o indivíduo ensaia, durante o sonho, futuras situações que o ajudam a resolver problemas.

Muito haveria que falar sobre o sonho, e é ainda Fernando Pessoa que, das suas cinco frases universais no livro Mensagem, sobressai que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, sem esquecer a Pedra Filosofal, de António Gedeão/Rómulo de Carvalho: “Eles não sabem, nem sonham/que o sonho comanda a vida/Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/ como bola colorida/entre as mãos de uma criança”.

 

                                                                                                              João Jesus Nunes, Escritor

- 16 out, 2021