Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: x
Nº: 493

Querela pela morte acontecida ao Major Francisco da Cunha de Belmonte – 1ª parte Voltar

Cerrava-se a noite na Vila de Belmonte, lá fora o vento uiva, agreste, endemoninhado. Francisco da Cunha sente-se adoentado, pede a sua criada que lhe leve à cabeceira uma taçada de água bem fresca. O Major de Milícias e Juiz Ordinário do Julgado puxa a manta quente e fofa, aconchega o pescoço, adormece. Um homem probo e benemérito que por muitos anos serviu a Pátria como militar, chegando ao honroso posto de Major. Participa no cordão sanitário do Verão de mil oitocentos e quatro para conter, nas fronteiras, o novo surto de febre-amarela, que varria a Andaluzia. Hoje, porém, já não existem as Milícias e Ordenanças, abolidas, as primeiras, por Decreto de vinte e quatro de julho de mil oitocentos e trinta e dois e as segundas pelo de vinte de Julho do mesmo ano.

Terminada a Guerra Peninsular, recolhe à terra dos Cabrais onde granjeou merecida fama, e em poucos anos engordou os bens levados ao casamento por sua mulher, filha de um abastado lavrador de Peraboa, que morre do “mal asiático”. O velho militar atreve-se a pôr o pé em ramo verde! Aos sessenta anos bem contados arranjou cachopa e novo herdeiro. Fora cortado em boa lua! A filha Rosa da Cunha e o marido sentem que a herança lhes foge entre dedos! Querem que seu pai e sogro lhes desse os bens “às boas” dentro de três dias.

A criada Margarida João prepara-se para fechar a adega, que fica em frente da casa. A porta grande range, as portadas batem apanhadas pela rija nortada, aconchega o lenço garrido aos longos cabelos, acende a candeia de azeite. Sente forte pancada na porta da frente, assusta-se! Lá fora chovia copiosamente, os trovões ribombavam para os lados da Estrela. Dois homens disfarçados e a pingar água, dão-lhe a salvação, querem falar com o velho major. Incitam a criada da casa, de que trazem carta do irmão de Vilar Maior e que tinham negócios a tratar com ele: - Ó menina petisque aí lume e leve-nos ao major Francisco!

A criada acreditando na boa-fé permitiu-lhes a entrada, pede-lhes que descalcem as botarras enlameadas. Dizem que não, que vai ser visita curta. Solicitam-lhe um quartilho de bebida, que trazem os gorgomilos secos! Dão-lhe um pataco de cobre, emborcam de uma só vez a jeropiga, a melhor da região, já conhecida “detrás da serra”.

Leva-os a seu amo que lhe diz para arranjar cama e ceia para aqueles senhores. O mais novo fica na saleta, parece ainda moço e imberbe, de rosto bem feito. O outro, de barba comprida, com uma cicatriz junto à orelha direita, suíças pretas, vestido de pano azul, calças e botas de montar e chapéu de aba “à espanhola”, entra para o quarto. Descarrega, à queima-roupa, um tiro de bacamarte! O velho major mistura o sangue de herói nacional com os alvos lençóis! Sente que chegou a sua hora! A criada deixa cair a candeia da mão e tudo ficou às escuras. Um dos matadores lhe pôs a mão na boca, para não gritar! Escapam-se pela janela que dava para a Tulha dos Cabrais.

A Ana Calhorda era uma sabidona! Já se resmungava que a filha tinha concorrido com seu marido para a morte de seu pai e sogro e que este tinha uma fortuna escondida em meias peças em ouro, do tempo do Senhor D. Miguel. Dizia-se, de uma forma algo invejosa, que eram para dar ao filho bastardo!

No dia seguinte ao assassinato, na casa do morto, o cirurgião aprovado da Covilhã, Tomás José Mendes e António José Ruivo, sangrador aprovado em meia cirurgia, profanam o corpo. O velho militar, que escapou aos franceses e às lutas liberais, tem na parte lateral superior e esquerda da região torácica, uma ferida contusa de couro e carne cortada de extensão de duas polegadas, pouco mais ou menos, penetrante à cavidade do mesmo nome, com lesão dos órgãos nela contida, cujos ferimentos indicavam ser feitos com instrumento fulminantes e destes foi causa da morte.

O ferrador José da Costa com seu sócio e cunhado Francisco de Carvalho, de alcunha “da Jacinta”, foram convidados por João Paulo, tendeiro da vila de Belmonte para assassinarem Francisco Pereira da Cunha. Promete-lhes por prémio vinte moedas. Os matadores estiveram ocultos, por três dias, na casa do perverso tendeiro. O Major Francisco andava com obras na sua casa, quer a sua amásia da Vila de Caria “teúda e manteúda”! Por causa dela, que lhe dera um filho varão, atrevera-se a censurar o senhor Bispo da Guarda a propósito da contenda que a Mitra da Guarda trazia contra os agricultores e criadores de gado de Caria e Monte do Bispo

- 25 set, 2021