Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: X
Nº: 476

Estórias de um Arquivo Judicial: O sapateiro miguelista de Castelo Novo – 2ª parte Voltar

Em diferentes pontos da província das Beiras continuavam as agitações miguelistas, que ameaçavam os amantes do legítimo governo. Do lugar do Ferro chega a notícia que alguns perversos e revolucionários fazem aparecer pasquins sediosos! A porta do comissário da paróquia, José Pires das Neves, transborda de insultos: - “ D. Miguel 1.º Rei de Portugal = Hes comissario tens grande poder, vem chegando os Grandes Carlos e Miguel Dons e Reis Devinos = Pobre cacarro quem te hade defender = diante da tua porta esta se preparando huma forca onde tu e elles (os cabos de polícia) vão morrer =”. Já se fala no lugar do Ferro como a capital da república da Cova da Beira!

Nem a religião escapa à fúria revolucionária! No lugar do Peso a população revolta-se contra reverendo arcipreste! Tinha incumbido o curato e a igreja ao padre Lúcio dos Santos Portas. Acontece que o filho do juiz eleito da freguesia também estava interessado na proteção das almas do Peso. Foi preterido porque tinha costela miguelista. Até do reino de Espanha aparece devassa! O célebre guerrilheiro Montejo está de regresso às terras raianas.

O juiz Pereira Barreto anda enfartado de tanto serviço, sente-se ameaçado, as rugas espraiam-se pela face, envelhece! Acompanham-no alguns militares para proteção. O julgamento do sapateiro de Castelo Novo é de alto risco!

A sessão corre tensa, acalorada. Pisoeiros, moleiros, jornaleiros, sapateiros, sangradores, boticários, almocreves e proprietários, desfilam perante o Tribunal. Contam a sua verdade, perturbada, por vezes, pela sua mordaça ideológica! Os jurados estão atentos! Todos apontam o dedo à costela realista do réu. Que na noite de vinte e um para vinte e dois de Outubro de mil oitocentos e trinta e sete se ausentou de Castelo Novo e se ajuntara com o António Januário da Soalheira, ex-tenente dos Voluntários Realistas, o Manuel António Ribeiro Gaspar do Louriçal e muitos outros homens. Por volta da uma da manhã batem à porta do Bernardo Robles, secretário da Câmara da Vila de S. Vicente da Beira, ameaçam-o!

O António Maria, filho do bacharel Corveira da vila de Alpedrinha, capitão que foi do batalhão fixo de Castelo Branco “faz-lhe a folha”. Não tem dúvidas! O réu associou-se a guerrilhas miguelistas que calcorreiam as serranias e vales da Estrela e Gardunha. Comandados pelo Manuel António do Louriçal, irmão do bacharel João António, que se intitulava Major! A testemunha esteve com o Batalhão de Midões, comandado por um dos Brandões, no dia 25 de Novembro de 1837. Marcharam sobre a guerrilha do sapateiro de Castelo Novo, composta por vinte e quatro homens armados, que tinham entrado no Sobral depois de insultarem e desancarem no juiz eleito de Casegas. O pobre do homem ainda foi condenado à multa de doze mil réis, por não ter informado as autoridades! Roubaram armas, uma caixa de guerra de latão, que estava em casa de Luís Dias Campos e tabaco do Estanco. Fugiram na direção de Cebola! Foram desbaratados pela tropa do Barão de Oleiros, comandante da subdivisão militar de Castelo Branco, um liberal que se viu obrigado a emigrar depois de mil oitocentos e vinte e oito.

O réu diz chamar-se João Pedro, solteiro, filho de Luís Sanches, sapateiro de ofício, de vinte e quatro anos! O juiz presidente confronta-o com a assentada. O acusado nega todos os factos que lhe apontam, faz as suas queixinhas ao magistrado. Que o regedor de Alpedrinha lhe assentou umas valentes pancadas que o deixaram doente por muitos dias! Que fora preso quando regressava de Penamacor, por não trazer consigo o passaporte. Injuria a autoridade local. O juiz manda-o recolher à cadeia. Prosseguem as hostilidades contra o sapateiro miguelista!

O advogado de defesa profere as suas alegações, tão extensas como sermão da Quaresma! O juiz manda-o abreviar. Os jurados são unânimes! Voltando o júri à sala do tribunal, com o presidente José Fernandes Ferreira à frente, por este foi lida em voz alta as respostas aos quesitos. Os crimes de desobediência, resistência à autoridade e rebelião estão provados, traçam o destino do sapateiro de Castelo Novo!

O escrivão Joaquim da Costa Quintela conclui os autos ao juiz João de Campos Barreto. A sentença é lavrada nesse mesmo dia, em duas folhas e meia acaba com o regabofe do sapateiro: – “Portanto e conformando-me com o Direito citado, condeno ao reo alem do tempo decorrido de sua prisão, a que morra de morte natural na forca para sempre, e nas custas dos autos como forem contadas =Alpedrinha 14 de Agosto de 1838.”

- 15 jun, 2021
- José Avelino