Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: X
Nº: 457

“Os artistas vão ser sempre necessários para salvar o mundo da inércia e monotonia” Voltar

                                                                           

ARTE Natural da Guarda, Catarina Flor licenciou-se em Artes Plásticas e Multimédia e é detentora de uma pós-graduação em ilustração. No âmbito do programa BOLSEI-ARTE de apoio à experimentação artística, Catarina tem a sua exposição «Cres(Ser)», que explora questões do foro ontológico, patente até dia 22 de janeiro, no Museu da Guarda. Em entrevista ao Jornal Fórum Covilhã, a artista explica o caminho que a fez chegar até aqui.

 

                                                                                                         

 

Jornal Fórum Covilhã (JFC) - Como começou o gosto pelas artes?

Catarina Flor (CF)- Fui cativada pelo mundo das artes desde muito cedo por influência dos meus pais, lembro-me de, em pequena, os nossos fins de semana serem preenchidos desde visitas a exposições de arte a assistir a peças de teatro, ballet ou ópera. Comecei por me apaixonar pelo ballet e, posteriormente, pela fotografia quando por volta dos meus sete anos pedi uma câmara fotográfica. Felizmente os meus pais tiveram possibilidades de me abrir as portas para explorar esse mundo infindável, que continua a ser uma grande paixão. Assim como, por exemplo, a arte da representação. Dentro das minhas paixões não posso deixar de referir a ilustração, sinto que nasceu comigo, cresceu comigo e me tem feito crescer! Conseguia preencher as paredes da minha casa com todos os meus desenhos guardados pela minha família, e espero continuar a fazê-lo, preenchendo não só as minhas paredes, mas a de todos os que apreciam a minha arte. 

 

JFC - Quais são as suas maiores influências enquanto artista?

CF - O meu primeiro amor foi a obra «Ophelia» de John Everett Millais e, depois, «Fallen Angel» de Alexandre Cabanel. Não poderei deixar de falar de Van Gogh, Rembrandt, Frida Kahlo, a nossa querida Paula Rego e claro Caravaggio. Todos eles tão diferentes, mas ao mesmo tempo com uma capacidade incrível de fazerem parar o tempo. A nível de artistas contemporâneos, Anastasia Suvorova (chaosegos), Daehyun Kim, Rovina Cai, David Álvarez, Anja Sušanj, Stefan Zsaitsits entre outros. Estes artistas influenciaram-me a descobrir o meu traço, longe do julgamento de não estar perfeito ou com as proporções perfeitas. Creio que só quando fugimos dos estereótipos que nos são colocados é que encontramos realmente o nosso traço.

 

JFC - Quais foram os principais desafios enquanto artista?

CF - O meu primeiro desafio enquanto artista e penso que falo por todos os artistas é aceitar a realidade de que queremos viver como tal. Quando me inscrevi no ensino secundário e partilhei com a minha família e amigos a decisão de que queria ser artista, e que iria ser esse o meu percurso, os meus pais sempre me apoiaram, mas tive imensa gente que me tentou mostrar a falaciosa realidade de que o mundo das artes “não tem futuro”. Felizmente estava convicta do meu rumo e não me deixei influenciar por ideias ou ideologias que tentassem colocar ainda mais obstáculos no mesmo, agarrando-me à teoria de que os artistas vão ser sempre necessários para salvar o mundo da inércia e monotonia. O segundo desafio foi quando saí da faculdade e enfrentei um mundo formatado, escasso de oportunidades para quem quer vingar fora da caixa, mas braços abertos para quem se queira entregar ao conformismo, e eu queria ser ilustradora. Fiquei desmotivada a achar que afinal não era este o meu propósito, mas quando despi todas as ideias preconcebidas percebi que ser artista freelancer seria o meu caminho. Por fim, no processo de me encontrar enfrento o meu último desafio, encontrar o meu traço artístico e o seu lugar no mundo das artes, e creio que todos os artistas passam por isso, a meu ver é e sempre será o maior desafio.

 

JFC - Como definiria os seus trabalhos?

CF - Os meus trabalhos são os meus suspiros, as minhas palavras, o veículo entre a minha alma e o mundo exterior. A sua definição deixo aos olhos de quem os vê.

 

JFC - «Cres(Ser)» explora questões do foro ontológico. Como surgiu a inspiração para a criação das obras?

CF - Em todas as minhas obras tenciono sempre atribuir às personagens um sentimento, então decidi desafiar-me e inverter os papéis, decodificar qual seriam as formas dos sentimentos. E achei que 2020 seria a altura certa de dar voz às perguntas que diariamente dão lugar ao nosso silêncio, porque todos nós já nos questionamos o que era isto do sentir, ou o que era o amor, mas são questões de tamanha dimensão que acabamos por guardá-las numa gaveta em vez de procurar resposta. Sempre senti curiosidade em procurar entender as diferentes visões e se de facto se alteram nas distintas etapas da nossa vida. Um dos meus focos enquanto artista é fazer o espectador questionar-se. É desta combinação de reflexões que surge a exposição “Cres(Ser)”, uma amálgama lexical que sugere o entrelaçado entre o Crescer e o Ser.

 

JFC - Como é que um artista cumpre o processo entre a criação das suas obras até ao momento em que as expõe ao olhar crítico do público?

CF - Sobretudo é necessário manter o foco, fazer a obra sem pensar em fatores externos ou adversidades, senão gera-se uma ansiedade que é prejudicial a todo o processo, é necessário criar a obra de um modo genuíno, cru e cheio de sentimentos, sejam eles quais forem desde que verdadeiros.

 

JFC - Qual a sensação de ter as suas obras expostas numa região do interior?

CF - É um privilégio ver as minhas obras expostas ao público independentemente do lugar, mas não posso deixar de demonstrar um enorme orgulho e gratidão por as ter expostas na minha cidade natal, na Guarda. É um orgulho enorme poder ter voz na cidade que me viu crescer e vê-la crescer também nunca vertente cultural com a criação de programas de apoio como o BOLSEI-ARTE (Aquilo Teatro) e Incentiv[ART] (Município da Guarda), que sem dúvida são uma mais valia, porque permitem ao artista dar voz ao seu trabalho.

- 13 jan, 2021
- Helena Esteves