Diretor: Vitor Aleixo
Ano: XI
Nº: 550

O Hospital de Penamacor, a "Farrapana" e a Romaria da Senhora da Póvoa Voltar

Os regeneradores e os progressistas das Beiras odeiam-se! Os sopapos e as bengaladas, com alguns tiros à mistura, perturbam a pacífica região. Pobre da velhinha carta constitucional, nascida com cheirinho a samba no sul-americano Rio de Janeiro. Tem dezasseis filhos em 1852 e sessenta e nove netos em 1885. Esfarrapadinha, uma choldra!

O Hospital de Penamacor, ao mesmo tempo Banco, acocorava-se no monte a que os antigos chamavam Pena Maior. A sua administração apetece! Além do gordo salário, trinta mil réis eram consignados, vejam bem, a alfinetes e a amêndoas! Uma extravagância. Terra que não rende não prende! O senhor governador manda, tudo a bem dos seus correligionários. Pobre da Senhora da Póvoa que tudo sustenta, desde 1835!

O mês de Maio de 1899 vai sereno, com algumas trovoadas nas tardes afogueadas pelo calor. Uma multidão de carros com alvos lençóis de linho, ligados solidamente aos estadulhos, calcorreiam as serranias da serra da Malcata, carregam o saquinho de trigo para agradecer à Santa. Peregrina-se na direcção de Vale do Lobo para assistir à grandiosa romaria da Nossa Senhora da Póvoa.

Nos carros, embrulhados em colchas coloridas, escutavam-se galhofas! Os risos das senhoras corriam serra acima, impunham-se à chiadeira dos carros puxados pelos gordos bois vermelhos, que engalanados com os seus belos cornos, se babavam muito. Alcovitava-se! Era a estória da pomba e da amante! Acontece que nos campos lavrados do Fundão fora morta, por um caçador, uma pomba. Levava debaixo da asa um bilhetinho muito amoroso, muito cheiroso: - “Meu Carlinhos, não deixes de vir esta noite, às nove horas; meu marido foi para a caça e demora-se três dias”. Adivinhe caro leitor, quem era o caçador sortudo?!

A romaria dura três saborosos dias, mas é sobretudo movimentada desde segunda-feira pela tarde. As romeiras afluem de toda a parte, desembocam de todos os caminhos, entoando cantigas melancólicas, loas à Senhora, acompanhadas pelos adufes: - “ Nossa Senhora da Póvoa/Quem vos varreu a capela/As cachopas da Meimoa/Com raminhos de marcela”. As raparigas solteiras e virgens, em vistosos saiotes vermelhos, imprecam a Protectora: -“ Nossa Senhora da Póvoa/Que tendes na mão fechada/A relação das solteiras/Qu´inda não foi despachada…”.

A Maria “Despenteada” anda de olho no “Papa Ovelhas” do Vale de Espinho. Junta-se às “desesperadas”, que sobem a cantarolar e aos saltinhos até à capelinha: - “Nossa Senhora da Póvoa/Já cá vamos à ladeira/Deitai a pombinha fora/Que vai beber à ribeira…”.

Nesse ano o largo das festas parece um acampamento militar! Era o medo da “Farrapana”. Acontece que a velha filarmónica penamacorense fora dividida. A dos “Donos”, progressista, preta e miguelista e a regeneradora “Farrapana”, que captava simpatias e enchia a comarca e seu termo, com valsas estonteantes e delicadas árias de reportório clássico. Foi proibida de participar na romaria. Fala-se que a troco da promessa solene da entrega de uma Igreja rica, a um padre com as suas influenciazinhas!

O povo não quer saber, diverte-se à sua maneira. À boquinha da noite já se arrecadaram mais de seiscentos mil réis de esmolas. Fala-se de uma esmola de cinco libras ofertada por uma pobre mulher, que se apresentou rodeada de um rancho de filhos, magrinhos, cheios de fome. Ao depositar as seis libras oferecem-lhe, como é hábito, uma pequena medalha com o busto da Senhora. Agradece mas pediu, lacrimosa, que a substituíssem por quatro vinténs, para comprar cerejas. Para matar a fome a seus filhos! Um delírio!

Não há albergue para toda essa gente, que não se deita, não dorme e continua a folgar. Dirigem os olhos aos céus. Soltam os “oh!” e os “ah!” para as delícias do fogo preso com acompanhamento filarmónico. Não cessa o canto e a dança, ao som dos adufes e dos harmónicos. Milhares de bocas cantam: - “Nossa Senhora da Póvoa/Para o ano lá hei-de ir/Não vos hei-de levar nada/Tudo vos hei-de pedir”. Devotas com cinquenta e sessenta anos não param de cantar. Tombam arrasadinhas!

O sol nasce mansamente para os lados de Espanha, alumia esta enorme folgança. As romeiras aliviam os movimentos, fazem a sua aparição as “folias do Espírito Santo”. O Rei empunha majestosamente, o seu ceptro acompanhado pelo pajem com a coroa de flores na bandeja e do alferes desfraldando a bandeira. Associa-se o tambor e o pandeiro. Abrem-se as portas da igreja, levantam-se ao Céu orações fervorosas e chovem esmolas. A favor dos cofres do Hospital de Penamacor e dos seus administradores!

- 25 nov, 2022