Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 534

Poesia a bordo do Saramugo (2010-2013) Voltar

Dizem que a OBSESSÃO DO ESCRITOR é escrever, sobre isto ou aquilo! E o que escreve é autobiografia? É como um purgar, sublimar, desenraizar? Revelar recalcamentos?

Bem, isto tudo apenas fica como apontamento e ponto de discussão, mas alguém dizia ainda que “a escrita é algo que nos mantém focados numa dificuldade ou num insulto” e que “bons sentimentos são péssima literatura”, e isto em referência aos escritores.

Seja como for e porque escrever é comunicar, relatar, imaginar… Escrever é tanta coisa…

Aqui deixo um relato de um passeio a bordo do Saramugo, organizado pela escritora Lurdes Breda, de Montemor-o-Velho.

Saramugo, um nome estranho, mas que não esqueço porque me lembro do nome do escritor Saramago.

E aí vou eu integrada nessa viagem com poesia, no rio Mondego, aproveitando a maré que nos leva da Figueira da Foz a Montemor.

A poesia correu, espalhou a sua voz ao Mondego e o eco doce, gritado ou suave, mas vivo, mágico e enamorado dos poetas, fez-se ouvir …para além da margem, espalhando-se pelos campos de arroz, deixando encantadas pelas estranhas visitas, as garças que vemos em grandes bandos, poisando suavemente nas margens românticas do rio.

A meio da viagem o barco amarou…

Meu Deus - diziam uns; ora bolas - diziam outros. E o verde água revela-nos a serenidade de muitas garças, descontraídas e felizes, talvez estranhando as nossas vozes e, porque não dizer, a nossa algazarra. Considerei curioso, como sempre, e “nada de estranho vai acontecer”, pensei!

No facebook apareciam já publicações: Poesia com Camões, Poesia com Portugal… o Mondego com poesia no Saramugo…

As emoções… Como me emocionei cantando ao Mondego, até que subisse a maré…. Cantámos, cantámos…

 

E lancei ao Mondego o poema feito com esse fim:

SALinas (homenagem ao Mondego)

 

Também com sal se saboreia a vida

Deixando p’ra trás lágrimas perder

Na caminhada de anseios vivida

Doce afago quero então receber.

 

Na frescura d’águas que o mar abraça

D’esperanças vivo em ânsias de ternura

Doces caminhos que o lindo rio traça

Levam no vento auroras de ventura.

 

Ai, mas que belo é o vosso dançar das águas

Nos cuidados que esta minha alma sente

Como correr a vida em frescos leitos

 

Esquecer, desejo, pois as minhas mágoas

E se a corrente meu devaneio consente

Me liberte em desejos satisfeitos.

 

Aos poucos, a maré começou a subir e, ao de leve, magicamente, o Saramugo rodou para inverter a sua marcha, a caminho da Figueira da Foz, que nos esperava, no seu imenso areal brilhando ao sol.  

- 29 jul, 2022