Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 527

O assassinato do Doutor Hortênsio de S. Romão e os romeiros da Covilhã – 1ª parte Voltar

O Zé Lopes trazia já meio almude no bucho! Toldado pela vinhaça, injuriava os pobres dos bois que mugiam muito! Por tempo de uma semana fechara-se na adega sem querer ver sol nem lua, andava de desgosto amoroso. Os pais do rapaz já lhe tinham dito que a moça de Santa Marinha, que fora criada na casa de José Caldeira Castelo Branco e Mello, parente do futuro Barão do Mogadouro, não era forma de seu pé. A mãe, principalmente, protestava que, enquanto ela fosse viva, a tal filha da Mariquinhas não havia de ser sua nora, nem que a levasse o Diabo, e Deus lhe perdoasse, se pecava. Uma rapariga já muito falada, que pintava a manta nas romarias e seu pai um deslavado ferrador, que se apresentava nas feiras e romarias como cirurgião. Quando ia sozinho era desordem certa. A forte pinga, arrancada às cepas que se alapam à raiz dos Montes Hermínios, subia-lhe ao capacete do alambique, puxava-lhe pela jaqueta e era expulso do arraial à bordoada!

O Lopes regressava de Coimbra com o seu carroção atulhado. Fora buscar os tarecos do Dr. António Hortênsio Cardoso, sétimo lente catedrático da Faculdade de Cânones e que fora expulso dos bancos da universidade pelo seu reverendo amor a D. Miguel! Neste corria-lhe o sangue e a bravura de Paio de Carvalho, fidalgo ilustre no tempo do rei D. Afonso Henriques. Era um modelo acabado de beleza varonil. Os seus olhos azuis e os cabelos algo alourados, traziam em polvorosa os corações das morgadinhas e de algumas mães fidalgas. Mas foi Maria Estuarda Ferreira da Fonseca, uma menina muito delicada, muito apontada no amanho caseiro, nascida nas terras de Moimenta da Beira, mas com parentela em São Romão, que o levou ao altar. As suas pilhérias, que forrageou em Coimbra, escancararam as portas do coração da moça!

O Dr. Hortênsio Cardoso, já passante dos quarenta e cinco anos, mantinha a força que o destacara nas primeiras chufas com os pedreiros livres! Dele diziam os liberais, que o devassaram, mas sem o provar, que participara, na noite do dia vinte e dois de Outubro de 1837, na companhia do Januário de Castelo Novo e outros, no célebre assalto aos cofres da Câmara de S. Vicente da Beira. Voaram para o lado de lá da serra, cerca de cento e sessenta e quatro mil, novecentos e sessenta réis e as armas da Companhia de Provisórios e Guarda Nacional. Para armar gente a favor de D. Miguel! Alguns vizinhos, agora amantes da Rainha, quando o homem passa nas atarracadas ruas da vila, remoendo para os “seus adentros”, dizem: - “Ali vai o doutor da mula ruça”!

O ex-professor da universidade, especialista em doutrinas monárquico absolutas e um miguelista de coração, vive numa espaçada, mas já arruinada casa, com o filho, António Hortênsio Ferreira da Fonseca Mendes Cardoso, que em 49 vai frequentar a Universidade e partilhar os bancos, na cadeira de música, com o José de Matos Custodio e o José Baptista, ambos do lugar de Vilarinho da Lousã. Tem como lente, das cadeiras de Direito Publico Universal e Direito Publico Português, o Dr. Vicente Ferrer Neto Paiva, que morava na Rua da Matemática e era um apaixonado pela sua Quinta do Freixo.

Naquela manhã de finais de Abril, S. Romão, vilazinha alapada nas abas da serra da Estrela, vai despertando. A várzea da Assamassa bebe a sua doçura nas águas frescas do rio Alva. O milho ainda é rei, mas as pastagens vão tomando o lugar dos milharais e os rebanhos vão pontuando a paisagem, fugindo aos anos de seca que vai matando a paisagem verde da Estrela e a produção do muito afamado queijo da serra. O seu amor incondicional pelo rei Miguel ditara-lhe, em 36, a extinção como concelho! 

O Doutor Hortênsio levantara-se pouco depois do sol nado, abre a ampla e rasgada janela, que deita sobre a horta arborizada. A copiosa livraria, herdada em grande parte de seus avós paternos, dá um ar de capela ilustrada ao pequeno escritório. Encosta-se ao peitoril, com os olhos cravados nos cabeços da serra da Estrela, incha os pulmões de ar puríssimo. Fecha os olhos, enquanto se regala com um cafezinho feito pela sua velha criada, agora feita um caco, mas sempre muito fiel. Recorda os últimos anos em fuga, homiziado nos confins das Beiras! Perseguido pelos liberais do concelho por pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido nas terras raianas. Sequestraram-lhe os bens e tiraram-lhe os Cânones. Matava saudades da Dona Estuarda, uma vez por mês, na malhada da Rufina Benedita Silva de S. Romão, abençoados que estavam pela Nossa Senhora do Desterro.

 Naquela manhã conspirava-se! As pereiras, macieiras e abrunheiros, já floridos, alimentam um exército de abelhas, cujo zumbido abafa o melodioso assobio do melro, que preparava o ninho, no aconchego das glicínias, ao fundinho do varandim. O Agostinho Vaz Pato, de Santa Ovaia, antigo major de caçadores do exército de D. Miguel, o Bartolomeu da Costa Ornelas, o padre António, filho do Guarda Portão da Cidade de Coimbra, o Joaquim José Pinto da vila da Covilhã, que andava azedado com o Dr. Miguel António Dias, médico do partido desta vila, e outros afamados realistas, reúnem-se na casa do ex-professor de Cânones da Universidade. Falta o Manuel da Fonseca da vila de Valezim, filho de João da Fonseca de São Romão já defunto. Está a ferros nas enxovias de Almeida!

Os sócios combinam a ida do Doutor Hortênsio a Lisboa, a casa da Senhora Marquesa de Abrantes, para solicitar fundos para a causa. Censuravam-se os representantes da Nação, que, conquanto jurassem fidelidade à religião católica apostólica romana, eram uns ateus e que alardeando que lhes batiam o pé, vendiam-se aos ingleses por uma moeda. Uma negociata ministerial com as maçonarias! Quando as Cortes abrem, os senhores deputados da Nação, afetos ao Governo, até compareceram vestidos, vejam bem, com os uniformes das Guardas Nacionais! Comédia e comedoria, rosnava o reverendo padre António Pais, um assanhado presbítero, que também fazia parte da panelinha miguelista! Levanta a sua caneca, ensanguentada de um fresco morangueiro, fazem-se muitos brindes à Igreja, ao Menino Jesus e ao Senhor D. Miguel. As saudades do rei picam-lhes nas canecas, algazarram muito! O Dr. Hortênsio pede – lhes silêncio, relembra-os da sua clandestinidade e da ferocidade do juiz de fora de Seia.

Ao fundo do escritório, na penumbra, escutava-se um grande farfalhar de mastigação. Era o capitão Manuel Pereira do Sandomil, o mais avançado na idade, que dispunha de dentadura insuficiente, a dar na chicha. Untava a bigodeira, amarelada pelo fumo da pipa, com a saudável gordura, de presunto afogado na salgadeira. Todos gargalharam, à D. Miguel!

(continua)

José Avelino Gonçalves, Juiz Desembargador

- 24 jun, 2022