Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 521

“Player Branding” uma referência para otimizar a organização Voltar

O mundo empresarial tem aproveitado os conhecimentos do desporto para melhor gerir os recursos humanos, no que respeita, por exemplo, à otimização de equipas. Por isso, não tenho dúvidas que também no desporto se pode e deve procurar operacionalizar conhecimentos da área da gestão.

Se há algo que me despoleta interesse analisar, é a cultura dos clubes desportivos que vou conhecendo. Considero que, para que a consigamos perceber, não é necessário dominar terminologias complexas ou elaboradas ferramentas de gestão. Contudo, é importante compreender os padrões de comportamento e atitudes dos intervenientes que interagem com a organização. Na maioria das vezes, estes comportamentos estão de tal forma enraizados que os próprios elementos que constituem a organização não têm a perceção de que os estão a desenvolver.

Quando um clube idealiza estratégias de crescimento ou desenvolvimento, tem tendência a valorizar a forma como as mesmas são elaboradas em termos técnicos. No entanto, este tipo de estratégia pode ser deficitária, caso não se considere a cultura da organização e, por isso, mais dificilmente se conseguirá obter os resultados desejados. Como diria Peter Druker “a cultura devora a estratégia ao pequeno-almoço”.

Todos os agentes desportivos anseiam ter cada vez mais praticantes nas modalidades, principalmente nos escalões mais novos da formação. Esta é uma condição que permite aumentar a base de recrutamento de talentos, que associada a um trabalho eficaz nos diferentes escalões, poderá aumentar a probabilidade de transformar um jovem jogador num promissor desportista profissional.

Assim, considero imprescindível que a marca do clube tenha muito bem definidas as estratégias para todo o percurso do jogador, de forma a proporcionar-lhe as melhores experiências possíveis, em todas as etapas de desenvolvimento. Não faz sentido ter excelentes estratégias de atração de jogadores, se depois, ao integrar o clube, a sua experiência como praticante não corresponder às expetativas iniciais.

Deixo algumas sugestões e questões, inspiradas no Employer Experience – Ciclo do Colaborador, que facilmente podem ser adaptadas a qualquer organização desportiva:

1 - Para atrair: o que estou a fazer para atrair candidatos a jogadores? Qual é a imagem da marca do clube na comunidade? De que forma a informação sobre o meu clube chega à população alvo?

2 - Para recrutar: O jogador tem experiências positivas quando está a prestar provas de integração num clube, independentemente de ser admitido ou não no mesmo? Prestar provas será uma experiência positiva e marcante para a sua vida?

3 - Primeiros momentos no clube: Como se sente um jogador no primeiro dia de treino no clube? Sente segurança psicológica? Fica a conhecer o espaço e as pessoas que interagem na equipa que a acolheu? Recebe informações básicas sobre a dinâmica da organização? Tem alguém por perto (p. ex. capitão de equipa) para recorrer em caso de necessidade?

4 - Jogador integrado no clube: Os processos de funcionamento são eficientes? O que faço para manter o jogador emocionalmente conectado com o clube? O jogador sente que o êxito da equipa é reflexo do seu desempenho? Vejamos os seguintes exemplos, entre tantos outros, que podem contribuir para este facto: dar oportunidade a um jogador menos evoluído de participar nas competições durante mais tempo; colocar um jogador mais desenvolvido num escalão superior; emprestar o jogador, para que o mesmo possa ter mais possibilidade de competir.

5 - Saída do jogador: Todo o jogador tem um momento de saída. Como é feita essa saída? Existe algum momento em que o jogador se sinta reconhecido pelo que fez no clube? Como é feito esse reconhecimento? Mesmo quando a saída não é amigável, existe uma conversa cuidada como tentativa de esclarecimento ou apaziguamento da situação?

6 - Alumni: Apesar do jogador ter saído há bastante tempo do clube, continua a ser um embaixador do mesmo? De que forma é que ele mantém contacto com o clube? Recomenda o clube na sua rede de contactos?

Na minha perspetiva, estes são pequenos exemplos de como os clubes podem aproveitar o Ciclo do Colaborador adaptado aos jogadores, para montarem a sua estratégia de intervenção e desenvolvimento de experiências positivas e impactantes nos seus atletas. Não é uma receita, apenas uma referência!

É importante perceber o ciclo que se estabelece entre as diferentes fases que descrevo em cima, e que as mesmas se encontram fortemente conectadas e devem ser pensadas coerentemente como um todo e não apenas de forma individual.

Há centenas de iniciativas que possibilitam experiências fantásticas ao longo do ciclo do jogador. Quem terá a melhor resposta para o fazer de forma eficiente? Não tenho dúvidas que a resposta a esta questão é obtida através do envolvimento dos recursos humanos que colaboram com o clube, dos jogadores, dos pais e de tantas outras pessoas que intervêm e têm um papel ativo na organização.

 

João Sá Pinho, Professor

- 09 mai, 2022