Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 517

A carestia que aí vem! Voltar

Até agora temos estado relativamente protegidos do aumento dos preços, mas não será por muito mais tempo. A Alemanha atinge valores da inflação de 6% e na Espanha são já 5%, sendo este último o valor médio da União Europeia. É importante que saibamos ter em conta o aumento de preços que aí vem quando planeamos o ano de 2022. Estes níveis de inflação já não se faziam sentir na Europa, e nas nossas carteiras, desde os anos 90 do século passado. Mas nem tudo será mau, como veremos mais adiante.

O aumento dos preços será eventualmente acompanhado por um aumento das taxas de juro, o que não augura nada de bom para quem tem créditos ativos. Esta não é uma mera hipótese, mas uma grande certeza. O Banco de Inglaterra já se antecipou, em estilo chico-esperto pós-Brexit, e anunciou um aumento das taxas de juro. O Banco Central Europeu seguirá certamente na mesma linha. Mas, francamente, a inflação é um conceito demasiado abstrato para muitos de nós, e por isso vamos falar de coisas mais concretas.

Em primeiro lugar é importante termos em conta que o poder de compra sairá duplamente penalizado, pois o aumento dos preços deverá ser ainda acompanhado por um aumento dos juros dos empréstimos, quer seja da habitação ou do crédito ao consumo. No caso da construção civil os preços, todos o sabemos, têm sofrido um agravamento significativo, pois há muita necessidade de construção e pouca oferta de empresas e materiais de construção. Para os que já compraram casa estas são preocupações que já não afligem. Ora, nada de mais errado! Tome nota de que o IMI no próximo ano vai subir 4%, pois está indexado aos custos de construção de casas novas ou reabilitadas. E, por esta via, todos os detentores de prédios urbanos sentirão o impacto deste aumento de preços.

As rendas de casa, a eletricidade, o gás, e as telecomunicações vão ficar mais caras. Os aumentos podem inicialmente ser leves, se vistos isoladamente, mas no seu conjunto iremos senti-los com forte intensidade. Um dos locais onde já o começámos a sentir foi na mercearia. Poucas pessoas se deram ao trabalho de comparar o preço do bacalhau de há um ano para cá, em boa verdade ele está em torno de 10% mais caro. E há aumento de preços da mesma ordem de grandeza nas carnes, à exceção da de porco. Já o pão, em 2022, também irá sofrer um agravamento, pois os custos dos cereais e da energia estão a crescer, e as padarias terão de verter este custo no consumidor.

É claro que, com os custos todos a crescer, os transportes também ficarão mais caros, assim como as portagens. E aqui convém não esquecer que os aumentos das portagens estão indexados ao aumento da inflação. Os próprios automóveis, em particular os usados, têm estado a sofrer um agravamento do seu custo por conta da famosa crise dos “chips”, que tem impedido a produção à escala desejada de veículos novos.

A grande novidade na saúde é a nova tabela da ADSE, que vai aumentar em 35% o custo dos partos feitos nos hospitais convencionados. Estamos certos de que nenhuma família decide, ou não, ter mais um filho em função do custo do parto. No entanto, não se percebe as virtudes da política que aumenta o custo dos partos na altura em que temos falta de crianças.

A boa notícia é que a recuperação económica está a ocorrer a bom ritmo, e as previsões de crescimento para 2022 são otimistas e realistas. Em geral, as famílias acabaram por aforrar e consumir menos durante os dois anos de pandemia. E essa disponibilidade financeira irá animar o consumo e estimular a economia. Não é de admirar que aumentem os preços pois há mais procura. Uma segunda boa notícia é que a partir de 2022 chegará à economia portuguesa a injeção do PRR. Entre 2022 e 2026 haverá o PRR e o novo quadro comunitário de apoio do Horizonte 2030.

Neste re-arranque é natural que ocorra inflação e percamos algum poder de compra em 2022 e, como vimos, iremos senti-lo. Mas, com a economia a todo o gás, em 2023 já devemos começar a colher os frutos do nosso trabalho, sendo de esperar aumentos salariais mais significativos que compensem a perda de poder de compra de 2022. Sim, a Europa continuará a ser o melhor local do planeta para viver!

 

José Páscoa, Professor Universitário

- 07 jan, 2022