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Ano: X
Nº: 466

“A minha intenção era permanecer a trabalhar no Consulado-Geral de Portugal em Boston” Voltar

ENTREVISTA. O Jornal Fórum Covilhã esteve à conversa com Jorge Laires, estudante de mestrado na UBI que teve a oportunidade de realizar um estágio no Consulado Português em Boston, nos Estados Unidos.

Jornal Fórum Covilhã (JFC): De Penalva do Castelo para a Covilhã e para a UBI. O que te levou a escolheres a Covilhã para estudar?

Jorge Laires (JL): Muito honestamente eu desconhecia por completo a Covilhã antes de um amigo dos meus pais me ter recomendado a Universidade da Beira Interior para estudar. E mesmo nessa altura eu pensava “Covilhã? Para quê ir para a Covilhã quando posso ir para o Porto ou para Lisboa? Na montanha não se passa nada…” Ideias erradas de um estudante do secundário no interior do país. Mas com os bons conselhos dos meus pais e do meu tio, acabei por escolher Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior, como primeira opção. Tenho agora a dizer que não podia ter feito uma escolha melhor, por tanto que a cidade e a sua vida académica nos têm a oferecer. Vivi durante quatro anos a cerca de uma hora de Penalva do Castelo, facilitando as minhas viagens de fim de semana a casa, e com um custo de vida relativamente reduzido, quando penso no que teria sido se tivesse escolhido ir para o Porto ou para Lisboa, também pelos relatos de amigos e familiares que optaram por ir para essas cidades. Hoje posso dizer que tenho um orgulho tremendo em ser “made in UBI” e “made in Interior”.

JFC: Enveredas pelas Ciências da Comunicação e estás agora a tirar mestrado em Relações Internacionais. Quais os motivos para este direcionamento dos teus estudos?

JL: Desde pequeno que tenho um fascínio por História, e também desde pequeno que me diziam que tinha jeito para a escrita, e muita imaginação. Juntei um mais um, e quis ir “escrever histórias”. Ciências da Comunicação deu-me importantes bases académicas, especialmente na área do jornalismo, que me ajudaram a perceber melhor como funciona a nossa sociedade como um todo, e o impacto que os media têm nos dias de hoje. A minha outra “queda” é a Política (uma área completamente ligada à História) e quando chegou a altura de escolher o mestrado eu sabia que tinha de expandir os meus horizontes intelectuais e abrir portas para o meu futuro, e por isso optei pelas Relações Internacionais. RI em vez de Ciência Política muito devido ao meu interesse pela diplomacia e pelas relações entre os Estados ao longo do tempo, e como as coisas foram evoluindo até à atualidade, demonstrando assim outra vez a ligação com o meu fascínio por História.

JFC: Surge então a grande oportunidade para estagiares no Consulado Geral de Portugal, em Boston, nos Estados Unidos da América. Como está a ser a experiência de morar e trabalhar na América?

JL: É uma grande oportunidade que surge como fruto do meu esforço prévio em construir um currículo mais forte possível, e que não seria considerada se eu não tivesse familiares a viver nos Estados Unidos da América, muito perto de Boston. A experiência está a ser inevitavelmente afetada pela pandemia do COVID-19. Em outubro, quando comecei, eu viajava três dias por semana de comboio entre Pawtucket, Rhode Island, e a cidade de Boston, no estado de Massachusetts, e nos restantes dias da semana eu trabalhava em part-time num restaurante de sandwiches, para conseguir sustentar algumas despesas. Porém, os números diários de casos positivos começaram a subir, e, por indicação do Cônsul-Geral, comecei a trabalhar a partir de casa. Assim estou desde então, sem grande oportunidade para sair de casa (tirando os ocasionais passeios a pé e voltas de bicicleta). A vida nos Estados Unidos é algo diferente da vida em Portugal. Tudo é muito mais caro, mas a oferta de trabalho é absurda, e posso dar o meu exemplo: tendo nacionalidade americana, tive apenas de requisitar o meu número de segurança social (que chegou em cerca de uma semana), e depois disso comecei a enviar aplicações para vários estabelecimentos. No dia a seguir a ter recebido o cartão de segurança social já tinha arranjado emprego part-time, a ganhar $12.75 à hora. Algo que posso referir em relação às pessoas de cá é que, pelo menos no estado onde estou, aqueles estereótipos que existem sobre os americanos está totalmente errado, talvez até por ser um estado em que grande parte da população é portuguesa ou com descendência portuguesa. Imensa gente com que interagi fala português, muitos jovens têm aulas de português na escola, e muitos me surpreenderam com a facilidade com que falam a nossa língua. A vida aqui é muito mais acelerada, toda a gente anda a mil à hora e há sempre coisas para fazer, mas a simpatia e compaixão que as pessoas demonstram surpreendeu-me muito.

JFC: Quais são os teus principais objetivos para o futuro?

JL: A minha intenção ao candidatar-me a este estágio era permanecer a trabalhar no Consulado-Geral de Portugal em Boston. Tal como disse, é um trabalho gratificante, mas depende muito das possibilidades em relação ao custo de vida aqui nos Estados Unidos da América, e por isso, neste momento, é muito difícil prever aquilo que será o meu futuro mais próximo (depois de terminar o mestrado). O que posso dizer é que mantenho todas as portas abertas, e estou preparado para agarrar todas as boas oportunidades que me chegarem, seja trabalho diplomático, trabalho numa instituição internacional ou nacional, trabalho num outro consulado ou numa embaixada, ou até soltar o “bichinho” político que se quer mostrar ao mundo. Estou focado no meu futuro e na minha vida profissional, e muito motivado para conseguir dar asas ao meu potencial.

- 09 fev, 2021
- Fernando Gil Teixeira