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Ano: X
Nº: 466

“Ter sido o primeiro doutorado tem um sabor especial” Voltar

Tiago Fernandes, primeiro doutorado em Media Artes na academia beirã, e atual professor na instituição, contou-nos como correu o seu percurso, em que incide a sua investigação e planos para o futuro

Como é ser o primeiro doutorado em Media Artes na Universidade da Beira Interior e ser o responsável por desbravar esse primeiro passo de uma porta que fica aberta?

É, evidentemente, uma sensação muito boa. Foram vários anos de pesquisa intensa, em diálogo permanente com o meu orientador, professor Paulo Cunha, e outros docentes da UBI, nomeadamente do LabCom. É muito gratificante terminar esta etapa, naquela que foi e será sempre a «minha casa», foi na UBI que me formei desde a licenciatura e atualmente sou docente dos cursos de Cinema, e, naturalmente, tenho um carinho muito especial pela instituição e por tudo aquilo que representa para a região e para o país. Também fiquei muito grato com a oportunidade de fazer uma investigação de doutoramento na Covilhã, numa área científica inovadora que combina a vertente de investigação com a prática artística, permitindo uma transferência de conhecimento entre a academia e a arte. Convém frisar que este Doutoramento em Media Artes é o primeiro do país a combinar diferentes áreas artísticas como o cinema, design, artes visuais, entre outras, e que esta oferta pedagógica inovadora só foi possível devido ao enorme empenho e persistência do professor Francisco Paiva, coordenador do curso. Mas para além disso, importa também salientar o papel fundamental do recém-criado Departamento de Artes, presidido pelo professor Luís Nogueira, e que acaba por consolidar científica e pedagogicamente uma oferta formativa essencial, inovadora e que tem sido uma aposta da UBI. O facto de ter sido o primeiro doutorado tem um sabor especial pelo evidente caráter simbólico que acarreta, mas nos próximos tempos serão vários os colegas de turma que vão terminar o seu percurso e estou muito entusiasmado e expectante pelas investigações que serão apresentadas no futuro.

 

Devido à pandemia teve de o realizar de forma online, algo que não seria uma opção até então. Como correu essa adaptação? O elemento presencial fez falta em algum momento?

As provas foram realizadas em formato híbrido, metade do júri participou presencialmente e a outra metade à distância. Obviamente que gostava que todos pudessem estar presentes fisicamente, mas nesta fase já todos estamos bastante familiarizados com a utilização destas ferramentas informáticas que permitem realizar este tipo de provas com o rigor e fluxo de comunicação desejáveis.

Escutar as paisagens, dando um sentido sonoro às mesmas que tinha até então um sentido essencialmente visual e palpável. Como definiria esta sua nova abordagem a este tema e o que desenvolveu no seu trabalho?

Desde o início, o objetivo deste projeto era sensibilizar as pessoas para a importância dos sons que materializam as paisagens, propondo uma re-hierarquização dos sentidos. As paisagens podem ser absolutamente ressignificadas e estarão sempre dependentes de uma leitura subjetiva baseada na herança acústica do observador e que vai sendo constantemente reformulada. A partir da concretização de dois projetos artísticos, «Retro Instalação» (2019) e «Entre Tempos» (2020), pretendi comprovar que a experiência de observação é singular e subjetiva, na medida em que se trata de um processo de escuta que vai além da audição, englobando todos os sentidos numa abordagem multissensorial que será extremamente dependente da subjetividade de cada pessoa e das suas heranças acústicas, sociais, religiosas, políticas, demográficas e afetivas. 

 

Quais são os planos profissionais para o futuro? Que tipo de desafios mais gostava de abraçar?

A área do som continuará sempre presente, até porque se prolonga para a sala de aula e para a minha atividade profissional, por isso não posso esconder o desejo de contribuir positivamente para a valorização desta área de estudos, frequentemente menosprezada nos estudos de cinema. Por isso mesmo, estou neste momento a organizar o seminário internacional «Escutar Imagens», uma parceria entre a UBI e uma universidade brasileira, que acontecerá em maio de 2021 na Tinturaria – Galeria de Exposições, aqui na Covilhã. Em simultâneo, estou ainda a coordenar a segunda edição da Residência Artística Montanha Mágica, que acontecerá ainda este ano, e a preparar uma instalação sonora interativa para o próximo.

- 02 fev, 2021
- Fernando Gil Teixeira