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Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: X
Nº: 466

Agricultura biológica e sustentabilidade, uma epifania que começou numa corrida de fim de tarde Voltar

AGRICULTURA: António Fiúza seguia numa habitual corrida ao fim de tarde, quando se cruzou com o terreno que viria a ser a sua nova morada e o seu novo projeto. Defensor de uma agricultura biológica e mais familiar/local, apresentou-nos a sua “Quintinha dos Prados” e esteve à conversa connosco

 

António Fiúza tem 33 anos e é técnico de artes gráficas. Pode parecer impossível mas é mesmo verdade, António seguia numa corrida de fim de tarde quando se deparou com o seu futuro inesperadamente. “Estava numa das minhas habituais corridas de fim de tarde, vivia no centro do Fundão e costumava vir correr para estes lados e reparei neste terreno disponível para venda e pensei que poderia fazer algo de muito especial aqui”. António, que também tem outras pequenas propriedades que herdou do pai em Alcongosta, veio mesmo a comprar o terreno e está muito contente com esta decisão. E assim nasceu a “Quintinha dos Prados”, bem perto do centro da cidade do Fundão.

A ideia original foi apenas o consumo familiar. “Queria ter um terreno onde pudéssemos produzir aquilo que consumimos de uma forma saudável e natural, sem a utilização de químicos sintéticos”. Entretanto, António apercebeu-se que, mesmo com um tipo de produção completamente biológica, havia um excesso de produção que era possível escoar e criar um rendimento-extra. “Comecei a vender como toda a gente. Primeiro no mercado abastecedor, mas o valor não compensava, e depois mais focado nos mercados ecológicos do nosso concelho, como o de Alpedrinha e o do Fundão”. Além disso, a BioEco também está representada nas Praças Municipais de Covilhã e Fundão, onde leva os produtos biológicos destes pequenos produtores. Esta compra de proximidade é fundamental segundo António Fiúza, porque se os preços destes produtos são mais caros do que os produtos convencionais nas grandes superfícies isso deve-se às cadeias de distribuição e não aos produtores. Um cabaz da Quintinha dos Prados tem um custo médio de cerca de 10 euros, um valor muito abaixo daquele que é necessário para comprar os mesmos produtos num hipermercado e António vende-os diretamente ao consumidor para evitar inflações de preço. Os produtos podem ser comprados na página de Facebook da Quintinha dos Prados e António entende que o futuro passa muito pelas redes sociais e por tentar chegar por essa via ao consumidor final e garantir-lhe preços acessíveis. “É possível comprar mais saudável e gastar menos dinheiro, já oferecemos esse tipo de soluções”. Se os produtos biológicos forem mais caros, “as pessoas, numa região em que a maioria recebe o ordenado mínimo como a nossa, não os vão comprar” e nós já conseguimos evitar isso.

Mas o que é afinal uma produção biológica e o que a distingue da agricultora mais convencional ou até intensiva? “Nós respeitamos o que a natureza nos dá, os únicos químicos que utilizamos são os extraídos da natureza e que ela nos dá, não utilizamos químicos sintéticos. Isso garante uma alimentação mais saudável e natural. Utilizamos também flores que combatem pragas de forma natural sem necessidade de utilizar herbicidas. Há sempre alternativas, é só respeitar a natureza. Não temos de tirar nada do que está na terra, ela consegue gerir-se a ela própria se utilizarmos as suas respostas para ajudar a manter a nossa produção. Um exemplo muito comum são as formigas e o piolho que trazem. Há plantas que as conseguem manter mais afastadas e que até atraem outras espécies que se alimentam delas, nomeadamente as joaninhas”. A produção biológica é mais lenta e produz em menos quantidade, mas António Fiúza não vê isso como um problema, se o que está em causa é ter uma alimentação mais saudável e que nos dê mais qualidade de vida. “Se posso ter um produto mais natural, que não faça tão mal à saúde, prefiro esperar por ele mais tempo mas comer melhor e saudável”.

Ainda há uma grande dificuldade de encontrar sementes e plantas biológicas para poder semear e plantar, sendo que o mais próximo que existe é em Mafra e São Pedro do Sul relativamente às plantas e mesmo as sementes só se consegue encontrar em Idanha-a-Nova, o que obriga os produtores a fazerem grandes deslocações para se abastecerem novamente. É apenas mais uma das dificuldades da agricultura biológica na nossa região, para a qual António Fiúza tem uma sugestão. “Os tabuleiros podiam ser vendidos ainda sem a aplicação de qualquer químico e depois serem os produtores a decidir se usavam ou não. Assim nós que produzimos de forma biológica podíamos simplesmente comprar e plantar, e quem quisesse usar químicos posteriormente só tinha de os colocar depois de comprar os tabuleiros”.  

António defende ainda uma necessidade de mudar a forma de olhar para a agricultura e para a produção, defendendo um olhar mais local e nacional antes de pensar na exportação como agora se faz. “Não adianta pensar em exportar enquanto ainda nem somos autossuficientes e tínhamos capacidade para o ser se pensássemos na agricultura de uma forma social que meramente económica e mercantil”. Outra medida que António sugere é criar um apoio para pequenos produtores que queiram começar a produzir desta forma, independentemente da sua idade. Em relação às medidas de proteger as culturas das alterações climáticas António demonstra-se favorável, mas entende que a questão é bem mais profunda do que isso. “Produzir de forma biológica e sustentável é também uma forma de combater as alterações climáticas e muito eficaz, e no entanto os apoios e incentivos a esse tipo de produção ainda não são muitos e ainda é uma realidade que é preciso reforçar e devia ser um dos caminhos a ser mais explorados”. Também relativamente ao regadio, António não critica a sua extensão e considera que pode ser útil, mas “se não for para alimentar e ajudar o aumento ainda maior das produções super intensivas que marcam grande parte da nossa região e que são assentes em monoculturas”. É por isso que é contra as monoculturas. “Uma economia não pode viver só de uma coisa, se houver um problema nessa cultura é preciso ter respostas de outras culturas nesse ano. A nossa região tem potencial para produzir praticamente tudo e é preciso diversificar as culturas para conseguir aproveitar mais aquilo que a natureza tem para nos oferecer em todas as fases do ano. Podemos ter aqui tudo e não continuar a encomendar de fora produtos que conseguimos produzir aqui também com qualidade”. Além disso, para António as pessoas têm de se habituar mais a guiar a sua alimentação pelos ciclos da natureza e entender que “a agricultura é sazonal e que não se pode ter os produtos o ano todo sem mandar vir de fora ou de forma natural e não sintética”.

António Fiúza termina com uma sugestão ambiciosa. “Os municípios podiam começar a comprar aos produtores mais pequenos e locais, que de preferência produzam biologicamente, os produtos para cozinhar nas suas cantinas escolares e hospitais. Isto poderia mostrar as fragilidades que temos e incentivar a produção dos produtos que víssemos que faltam e até trazer novas pessoas interessadas em produzir novamente para o setor que precisa de gente nova com interesse e vontade de começar”.

Como de uma simples corrida perto de casa o Fundão ganhou um produtor. E é nestes felizes acasos da vida que pessoas como o António cuidam da vida e da alimentação de todos nós. E merecem ser recompensados, com a nossa escolha sistemática por produtos das nossas gentes e que de preferência sejam sustentáveis para o planeta e que beneficiem também a nossa alimentação individualmente. O futuro não espera…

- 09 jun, 2020
- Fernando Gil Teixeira