Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: X
Nº: 472

Imaginar uma Serra da Estrela Selvagem Voltar

Outono de 2033, Parque Nacional da Serra da Estrela. As alterações climáticas transformaram a Serra. A neve é hoje menos frequente, as temperaturas mais elevadas e a precipitação mais irregular.

O turismo de massas, os parques eólicos e as plantações florestais são hoje memórias cada vez mais distantes. O então parque natural passou a parque nacional. Uma estratégia ambiciosa que levou o Estado a alugar a maioria dos baldios da Serra por 100 anos, para promover a conservação da natureza, combater os efeitos da crise climática e incentivar um novo tipo de desenvolvimento económico sustentável e local.


A Serra é agora um lugar diferente. Antes marcada pelas encostas despidas, tem agora das florestas (apesar de jovens) mais ricas e bio diversas do país. Na parte mais alta, entre o topo e os 1600 metros, os zimbros e as bétulas regressaram em força.
Entre os 1600 e os 800 metros, florestas de carvalho negral e alvarinho, unem-se a castanheiros, tramazeiras, azevinho, sorveiras e plátanos bastardos. Várias árvores de fruto silvestres também fazem parte da floresta como a Macieira Brava, a Cerejeira e a Pereira Brava. E apesar de ainda raro, o teixo está também a recuperar pouco a pouco. A oeste, o mostajeiro e a este, o loureiro e o azereiro também fazem parte destas novas florestas da serra. Nos vales mais protegidos virados a sul a azinheira, o sobreiro e medronheiro são as espécies dominantes.


A Serra já não é um lugar vazio. Vários herbívoros regressaram. A Cabra-montês foi reintroduzida, o Veado e o Corço chegaram vindos de zonas próximas e como resultado de reforços populacionais. Também os Cavalos Selvagens e os Tauros, substituindo o perdido auroque, habitam a Serra e brevemente, esperamos também que os Zebros façam o seu regresso. Esta abundante e diversa população de herbívoros ajuda a controlar o risco de incêndios e são importantes presas para o Lobo ibérico que passou de uma presença esporádica para uma abundância considerável na Serra, contando agora com várias alcateias. Nas zonas mais baixas marcadas por um clima mediterrâneo o Lince- ibérico regressa também, vindo da população em expansão na Serra da Malcata.


Também as quatro espécies de abutres da península ibérica nidificam na Serra. Os Grifos e os Abutres do Egipto, também conhecidos como Britangos, nos penhascos mais baixos. Nas florestas mais maduras a norte habita agora uma colónia de Abutres Pretos. Recentemente, dois casais de Quebra-ossos também chegaram. Estas aves necrófagas dependem em grande parte das presas do Lobo ibérico para alimento, os campos de alimentação são agora finalmente estratégias do passado, já não são precisos neste processo.


Pela primeira vez desde a Idade Média existem zonas pantanosas nos vales da Serra. Os Castores regressaram e estão presentes no Mondego, no Zêzere, Alva e Ceira (os rios principais que nascem na Serra, espalhando a sua influência a várias ribeiras). Apesar da perda da neve, a Serra continua a armazenar grandes quantidades de água, graças a estes engenhosos roedores. Azereiros, aveleiras, freixos, ulmeiros, salgueiros e amieiros beneficiam da presença do Castor. Para surpresa dos investigadores, os Castores também se revelaram uma importante presa do Lobo ibérico, algo inesperado até então.

Um plano ambicioso de redução da poluição luminosa fez com que muitas espécies prosperassem. Por exemplo, as nove espécies de Morcegos beneficiam da diminuição da poluição luminosa e da melhoria dos habitats e hoje têm uma evolução positiva e densidades populacionais muito superiores.


O plano de controlo e irradiação de invasoras necessitou de muitos recursos, mas revelou-se um sucesso. As pequenas barragens e lagos na zona mais alta foram desmantelados por serem obsoletos e as turfeiras foram então recuperadas.


A grande diversidade de invertebrados suporta uma grande cadeia trófica, como Perdizes e Gralhas, que são alimento para as aves de rapina como a Águia-real e a Águia perdigueira, outrora chamada de Bonelli.


As comunidades locais, apesar de terem uma população inferior à do início do século XXI, têm hoje mais oportunidades, através de empregos ligados ao parque, como técnicos de fomento dos serviços de ecossistema, vigilantes ou mesmo investigadores. O turismo de natureza não é tão valioso como o turismo de massas de outros tempos, mas é mais benéfico para as populações rurais e também para a natureza, conciliando o melhor de dois mundos. Em algumas partes da Serra ainda se podem encontrar atividades tradicionais, como o pastoreio de ovelhas, apesar de em muito menor número do que em outros anos anteriores. Muitas estradas foram fechadas e a Serra é visitada através de caminhadas e ciclismo, com menor intervenção humana.


O Parque Nacional da Serra da Estrela é um dos maiores projetos de rewilding da Europa e um símbolo de esperança. Com várias espécies recuperadas, depois de séculos de ausência. É também a prova de que o desenvolvimento rural e a conservação/restauro da natureza não são objetivos opostos, mas sim complementares.


Quando a decadência da natureza acontece há milénios, o difícil é imaginar algo melhor, algo que nunca conhecemos. Apesar de difícil, é possível. Seremos os únicos a acreditar?



Fonte: http://www2.icnf.pt/portal/ap/p-nat/pnse/

https://theconversation.com/forget-environmental-doom-and-gloom-young-people-draw-alternative-visions-of-natures-future-102004

 

 

- 20 dez, 2020
- Daniel Veríssimo, Pedro Prata e Fernando Teixeira