Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 422

É Carnaval… mas eu levo a mal! Voltar

Na semana passada, encontrando-me eu na Suíça, resolvi revisitar a cidade de Lucerna, essencialmente por adorar a Kapellbrück assim como a extravagância de poder beber um café nas margens do lago naquele ambiente tranquilo característico do lugar. Pois, porque almoçar por aquelas bandas quase que me obrigaria a vender o carro. Mas a pacatez que eu procurava depressa se desbotou, pois, por aquelas bandas assinalam o Carnaval que nem loucos, com famílias e grupos de amigos celebrando não sei bem o quê e que pela quantidade de latas de cerveja que transportavam penso que eles também já não sabiam. Escusado será dizer que depois de ser sugado por esta multidão transformada, festejei eu a chegada ao carro para me pirar dali. Ao chegar a Portugal, aliviado por a época das máscaras ter terminado, constatei que por cá tinha sido prolongada. Apercebi-me que o Governo iria promover uma série de incentivos monetários para quem quiser vir trabalhar para o interior. Concluo assim, que se duas pessoas desempenharem o mesmo trabalho, se uma vier de Lisboa ou do Porto, será recompensada por isso, enquanto que o otário que sempre por cá labutou fica a “chuchar no dedo”. Só não nos estão a chamar de parvos porque quem teve esta ideia peregrina de certo que será o verdadeiro tolo e não está disfarçado devido à época. E se assim fosse só precisou de comprar os elásticos. Portanto, por analogia, quando eu precisar de músicos para uma orquestra, o violinista que venha da capital terá de receber mais do que aquele que reside na Covilhã, mesmo que seja de nível musical inferior. Estão nitidamente a passar-nos um atestado de incompetência que é ainda mais intolerável porque é passado por ineficazes e desconhecedores do interior. Seria muito mais inteligente criar condições para que a muita massa cinzenta que por cá existe não emigre. Com esta paupérrima medida até compensa ir embora algum tempo para voltar com outras condições. E será quando se acabar o incentivo ficam por cá ou vieram só ver da teta? É que na cultura, já vi muitos que “adoram” o interior enquanto as notas pingam e não falo das de música. Quando a torneira fecha, o amor pelo interior também segue a mesma direção. Quantos já chegaram aqui, idolatrados, que eram tipos de sucesso nos maiores centros musicais do mundo? E trocaram isso pelo interior de Portugal? Bazófias! Depois desaparecem. Ilusionistas. Estamos perante a inversão de valores, que em vez de se premiar e dar condições àqueles que por aqui operam fomenta-se uma espécie de colonização. Mas inquieta-me mais uma questão: os professores de Lisboa e Porto colocados no interior irão ter esse incentivo monetário ou é uma profissão parecida com a carne à Bolonhesa que bem triturada é sempre melhor? O anúncio da medida foi acertado na época pois enquadra-se bem no Carnaval, mas os reflexos deprimentes da mesma visitarão certamente a Páscoa e o Natal e não só num único ano. Sinto-me desrespeitado por aqueles que raramente me deram condições e depois de tudo o que já consegui profissionalmente oferecem-me agora uma espécie de Diploma de Lerdo. Até posso classificar esta medida como xenófoba pois as pessoas irão ser recompensadas pela sua origem e não pelo seu valor. É Carnaval… mas eu levo a mal!

 

- 03 mar, 2020
- Luís Cipriano